terça-feira, setembro 05, 2006

Torre de lego


Vagueio até reparar que estou num sítio completamente deserto! Vejo um café e decido parar um pouco para me orientar…
Entro…e à medida que os meus olhos se vão habituando à escuridão do interior, ganho percepção do abandono daquele local…esses locais que atraem almas solitárias e dotadas desse mesmo abandono...
Tudo o que vejo entristece-me…uma mulher a tomar o seu pequeno-almoço em pé, tem um ar revoltado, a rondar a raiva…ao olhar para baixo reparo que usa uma prótese na perna…
Apetece-me fugir dali, mas algo me detém! Vejo alguém entrar desnorteadamente ,indo contra tudo…é um cego!
“O que há para almoçar?”
Por vezes o relógio biológico adianta-se ou atrasa-se…ainda estávamos a meio da manhã! O cego era mais conversador, encheu aquele estranho lugar de ruído…mas a sua conversa era tão surreal quanto o seu aspecto!
Oiço ladrar ao meu lado…é o Tico! O meu alheamento aborrecera-o, ou talvez aquele cenário também o pusesse inquieto.
Ao ouvir ladrar surge uma outra personagem que estava sentada. Afaga o pêlo do cão…é estranha…com um cabelo muito comprido, carregado de brancas,uns dentes completamente estragados, mas de uma simpatia desconcertante.
Retribuo-lhe o sorriso, mas sinto um arrepio…A mulher da prótese deita-nos um olhar furtivo e o cego continua no seu monólogo. A empregada (muito adequada àquele cenário) apercebe-se finalmente que estou ali para pedir alguma coisa, mas antes que ela pudesse falar, saio com medo daquele local…daquelas estranhas criaturas!
O ser humano é assim…sente-se ameaçado pela”anormalidade”,por tudo o que seja diferente do seu “belo” mundo construído com memórias implantadas e ideias preconcebidas, que ao mínimo”abanão”se desmoronam, tal como aquelas torres gigantes de legos que as crianças gostam de fazer!!
Por isso saí para rua ensolarada…é sempre mais fácil fugir!

segunda-feira, setembro 04, 2006

Covêlo...

Covêlo do Gerês é aquele lugar perdido no coração de Trás-os-Montes...De uma maneira ou de outra algumas das minhas origens também estão lá.




Ontem fui à festinha da aldeia =) É das únicas alturas do ano em que vou lá.





É bonito ver diferentes tipos de vida...a simplicidade das coisas que teimamos em complicar...

Foi preciso viajar numa estrada de curvas até ao ponto mais alto para me aperceber disso...

Lá tudo muda...o céu é maior...lá oiço a noite e os seus estranhos habitantes...





Encontros inesperados...uma pessoa...um cão!O meu cão Fidel que eu deixei lá há alguns anos para grande tristeza minha...
Como é possível depois de tantos anos ele reconhecer-me???

O cão é realmente um animal surpreendente!Aquele lugar mudou-o...está diferente, mais calmo, com um olhar mais feliz...
Apesar de tudo isto não me consigo imaginar a morar lá...se calhar por isso é que vou lá tão poucas vezes...porque por ser tão calmo, este lugar inquieta-me...devo estar demasiado corrompida pela agitação citadina...